
Entrevistamos Jerome Faria sobre o seu mais recente lançamento, “NNY++”, editado pela Almasud Records. Este disco é composto por três temas originais, um em colaboração com o compositor experimental Japonês Kazuya Mise e outros dois com o produtor Português de Dark Ambient, Filipe Cruz.
Com este projecto, o objectivo foi estabelecer uma ponte de ligação entre diferentes visões da música electrónica experimental contemporânea, nomeadamente entre a Madeira, Portugal Continental e Kyoto no Japão.
O resultado é uma mistura ecléctica de diferentes sonoridades digitais que procura ultrapassar barreiras tanto em fronteiras musicais como geográficas.
Este é o teu primeiro disco em formato físico, mas não é de todo o teu primeiro trabalho original. Conta-nos um pouco do teu trajecto na música electrónica até os dias de hoje.
NNY: O meu primeiro registo foi editado em 2004 pela Enough Records e chama-se "OFFEAR.EP". Consiste num conjunto de 5 temas (6 com a faixa escondida) que na altura eram essencialmente a totalidade do meu "catálogo", a excepção de um tema (o primeiro de todos) que não chegou a ser incluído no disco. Depois seguiu-se o "( READ.ERROR)" editado pela MiMi Records no início de 2005 e que foi basicamente um conjunto de temas em que eu estava a trabalhar quando sofri uma perda drástica de informação no meu computador. Mesmo assim, a MiMi gostou do resultado daquelas demos e decidiu publicá-las na mesma. Confesso que não é um registo ao qual eu faça grande questão de referir hoje em dia devido à natureza primitiva dos temas e foi precisamente por isso que de seguida comecei a trabalhar naquilo que mais tarde viria a se tornar no "ECT" editado no final de 2005 pela excelente Test Tube Records. Esse terá sido sem dúvida um dos meus trabalhos mais pretensiosos em relação à minha motivação para produzir um disco obscuro e claustrofóbico. Em 2006 foi editado "COIL", um trabalho altamente conceptual e bastante diferente dos anteriores devido à presença de mais instrumentos acústicos e uma sonoridade menos processada e mais orgânica. Entretanto fui participando numa série de compilações com temas inéditos, nomeadamente na "Dark Vault" (Enough) em 2004, na "Saudade" (MiMi) e mais recentemente na "SOUNDResearch" onde participei num tema com uma banda de Lisboa chamada Structura, numa compilação internacional chamada "One On Twoism" que foi um tributo a uma banda escocesa chamada Boards Of Canada, a "Mothers Against Noise Vol. II" que será editada brevemente e também uma compilação da editora Portuguesa Thisco que será editada em CD numa edição limitada de 1000 cópias com distribuição internacional e que está prevista para sair ainda este semestre. Contribuí também com um tema para a banda sonora do documentário "Periféricos" realizado por Hugo Olim e no final do ano passado remisturei um tema para um artista e amigo meu chamado PS (Filipe Cruz) que foi editado também pela MiMi. Finalmente acabo de lançar o meu primeiro álbum de longa-duração em formato CD intitulado "NNY++" editado pela Almasud Records e que consiste num disco de colaborações com outros artistas.
Que papel têm tido as "netlabels" na tua carreira, e o que achas dessa forma de expor os trabalhos.
NNY: O papel das netlabels assume uma plataforma de divulgação muito importante para o meu trabalho, dada a liberdade criativa que é proporcionada aos artistas e a ausência de parâmetros de marketing impostos na publicação de um determinado registo. O espírito das netlabels é somente divulgar e partilhar música interessante para quem se interessar em ouvir, sem limites nem restrições. Além de proporcionar uma excelente alternativa aos milhares de downloads ilegais que ocorrem a cada segundo. Sem referir que se encontra música muito mais interessante e original nas netlabels do que na MTV!
Quais são para ti as maiores dificuldades em editar um disco de música electrónica em Portugal?
NNY: Numa palavra: Portugal. Em duas: os Portugueses. Em primeiro lugar porque falta quebrar a barreira de que a música electrónica se reserva e limita única e exclusivamente à música de dança, independentemente do género ou da subcategoria. Hoje em dia, até os géneros musicais considerados "não-electrónicos" como o rock ou o heavy metal (que são géneros muito mais populares em Portugal por parte de um público crítico do que a música electrónica seja ela de dança ou alternativa) são maioritariamente gravados e editados em formato digital com computadores, sem contar com o uso de processadores de efeitos e outros equipamentos electrónicos, o que acaba por fazer dela também música electrónica por contrapartida. Além de existir uma distinção pouco sensata de categorias por parte dos puristas mais extremos, eu acredito que seja necessário uma maior abertura de espírito por parte dos ouvintes para que exista um mercado de distribuição mais amplo em que se valorize o produto e não a promoção feita à volta dele. De modos que eu acredito que as verdadeiras dificuldades em Portugal residem em editar um disco, independentemente de ser electrónico ou não.
Onde vais buscar a inspiração para a criação dos teus temas? Segues algum processo de criação musical, ou tudo desenvolve-se a partir de um som inicial?
NNY: Acho que existe uma forte influência e componente cinemática na minha música. Normalmente, os temas desenvolvem-se a partir de um som qualquer que eu sintetizo ou então de um conceito ou ideia que exista por trás do projecto, muitas vezes sob a forma de uma componente subliminar (até porque existe um grande cuidado ao detalhe e a uma série de pormenores que podem ir desde a simbologia numérica dos tempos das faixas ou datas de lançamento até sons e referências dissimuladas profundamente nos temas). Existe também uma forte tendência em pensar no disco com uma narrativa e não como um conjunto de temas individuais agrupados no mesmo registo. Gosto de ouvir um álbum de uma ponta à outra da mesma forma que se lê um livro ou se vê um filme e é por isso que é importante para mim que exista uma dinâmica crescente na forma como se desenrola a música. Essa é uma das razões pela qual o meu disco "COIL" é composto por uma só faixa de 30 minutos que é constituído por 5 temas diferentes. Aparentemente, por vezes é preciso sugerir ou "impor" uma disciplina de audição adequada ao ouvinte menos atento. Por outro lado, se a falta de interesse for superior, reservam-se as melhores partes para os mais interessados.

Para este disco, trabalhaste com um artista japonês, Kazuya Mise. Como foi o processo de criação, uma vez que não partilhavam o mesmo estúdio?
NNY: Inicialmente entrei em contacto com o Kazuya porque admiro bastante o trabalho artístico dele, quer na música como nas outras áreas em que ele está envolvido e basicamente queria saber se ele estaria interessado em remisturar um tema meu. Entretanto, disponibilizei-lhe uma série de temas com os respectivos samples para que ele pudesse trabalhar da forma que acharia mais adequada. Passados alguns meses, ele entrou em contacto comigo e informou-me que já estava satisfeito e que me iria enviar o resultado que, basicamente, resultou numa única faixa de 30 minutos onde curiosamente, ainda é perfeitamente nítida a presença dos meus samples originais mas com uma atmosfera totalmente nova à volta deles. O mais estranho, tendo em conta que o Kazuya é uma artista que produz essencialmente noise, é que os momentos mais ruidosos dessa colaboração são precisamente os meus sons e não os dele. Ele conseguiu desenvolver um ambiente hipnótico e embora obscuro mas que ao mesmo tempo soa muito menos sintética e mais melódica que os meus temas na sua forma original. Acabei por ficar tão surpreendido com o resultado que optei por deixar de parte os temas iniciais e deixar que o resultado fosse o produto final desta colaboração e não uma simples remistura. Sugeri-lhe a ideia de fazermos o disco dessa forma e ele concordou em editarmos em conjunto.
Em que consistem as tuas actuações ao vivo, como têm corrido, e onde serão as próximas?
NNY: Existem duas versões das minhas actuações ao vivo: a primeira consiste num alinhamento de músicas mais acessíveis em que normalmente recorro ao uso de teclas e guitarra, e essencialmente improviso por cima de partes pre-programadas de melodias e ritmos. A outra versão (e aquela que acho pessoalmente a mais interessante de apresentar para o meu gosto pessoal) consiste numa performance menos musical em que me concentro mais em criar texturas sonoras específicas e não reproduzir músicas num formato habitual de "canções" com uma estrutura mais abstracta. Um dos aspectos que considero muito importante nas minhas actuações ao vivo é apresentar música nova que não tenha sido editada ou então modificar as músicas potencialmente mais conhecidas numa estética diferente para que exista uma componente diferente nos concertos e que não seja uma experiência demasiado semelhante à de ouvir um disco. Recentemente, tenho estado a desenvolver em conjunto com um amigo meu, Victor Martins, uma aplicação que nos permite criar imagens generativas em tempo real que são afectadas pelo som, o que permite uma componente visual muito forte em termos de sincronização e interpretação visual da música. O que, por sua vez, facilita a percepção da música que eu faço para as pessoas que não estão familiarizadas com formas de música mais experimental.
Que expectativas tens relativamente a este disco?
NNY: Ser presidente e acabar com os "Morangos com Açúcar"! É um trabalho sujo mas alguém tem de o fazer...
Que artistas tens como referência, ou com quem gostarias de trabalhar a nível musical?
NNY: Tenho um gosto musical ecléctico e por vezes estranho (para não dizer totalmente esquizofrénico). Tenho um passado com raízes profundas em bandas de heavy metal, altura em que (ironicamente) eu detestava tudo o que fosse electrónico. Acho que o interesse que eu tinha e continuo a ter nessas bandas não se afasta muito do interesse que tenho hoje em dia por ruído e sons sintéticos, sejam eles de que natureza forem. Um dos artistas responsáveis por estabelecer essa ponte de ligação entre o rock e a música electrónica foi o Trent Reznor (Nine Inch Nails) e é sem dúvida com ele que eu mais gostaria de trabalhar. Tenho também um grande fascínio por bandas industriais dos finais da década de 70, nomeadamente uma britânica chamada Coil que existiu até há cerca 2 anos atrás após a morte trágica de um dos seus fundadores, o John Balance (o meu disco com o mesmo nome é precisamente um tributo a esse artista) e que me influenciou fortemente na descoberta das possibilidades de se fazer música que não soa necessariamente a música ou a nenhum estilo ou instrumento específico mas que seja antes um conjunto de sons por vezes impossíveis de identificar. Também sou um grande apreciador da música dos Pink Floyd, principalmente dos primeiros trabalhos mais psicadélicos e experimentais que eles fizeram no início da carreira deles. Mais recentemente, na área da música electrónica contemporânea, tenho uma grande admiração pelo compositor alemão Alva Noto e o Japonês Ryoji Ikeda pelo extremo minimalismo das suas composições e a sua temática sobre o fluxo da informação digital e o papel da mesma na vida quotidiana. Por último, também gosto muito dos Boards Of Canada (da conceituada Warp Records) por serem capazes de fazer música electrónica que não soa a música electrónica. E de outras centenas de milhares de artistas novos que vou descobrindo dia após dia... É uma lista longa demais para seleccionar os mais influentes.
Quais são os teus projectos futuros? Algum outro lançamento já delineado?
NNY: Os meus projectos concentram-se essencialmente na área audiovisual em que pretendo aprofundar a relação entre imagem e som. Tenho fortes ambições para tentar orquestrar esses dois meios num plataforma em que ambos se complementem de modo a criar uma espécie de "personagens" com a qual nos podemos familiarizar e identificar facilmente ao longo da composição. Ando também a projectar algumas ideias que tenho em mente há já algum tempo para desenvolver instalações sonoras e tentar expandir um pouco a forma como se interpreta som e música além do formato tradicional de concerto. Em relação a música nova, tenho imenso material que vou tentar estruturar em entidades paralelas. Tenho um projecto híbrido chamado "Drones And Pulses" que tem uma maior tendência para ritmos dançáveis e batidas do chamado techno minimal e fora isso, estou a trabalhar num disco com uma sonoridade mais orientada para o trip-hop e ambient que irá contar com a participação de músicos convidados e que será muito menos electrónico e que terá uma maior musicalidade.