
John Digweed lança um novo volume da compilação ‘Transitions’, edição que sairá pela Renaissance durante o mês de Abril.
Em dois anos este é o 4º volume de uma compilação que pretende ser um retrato contemporâneo de John Digweed. “Esta foi a mais difícil”, afirma Digweed, “A proximidade entre lançamentos faz com que cada novo volume seja fortemente influenciado pelo anterior”.
São 22 temas dispostos em 73 minutos de uma forma singular utilizando o software Ableton Live. ‘Transitions Vol4’ é uma compilação complexa que embora reflicta a sua sonoridade nos clubes, é feita de uma forma e com uma técnica completamente distinta do seu djing.
Este conceituado dj iniciou a sua carreira aos 15 anos de idade em Hastings, no Reino Unido, e desde então tornou-se num dos mais conceituados dj’s e produtores do mundo.
Juntamente com Sasha, John foi o primeiro dj britânico a ter uma residência em Nova Iorque, naquele que era um dos melhores clubes do mundo, o Twilo.
Hoje em dia e par com o djing, a produção, e os programas de rádio, Digweed é também o dono da conhecida editora Bedrock, uma das marcas mais importantes da música underground britânica. Através dela que lançou e promoveu grandes artistas como: Pole Folder, Chris Fortier, Danny Howells, entre muitos outros.
Olá John! Estás prestes a lançar o volume 4 da compilação ‘Transitions’, estás contente com o resultado final? Ou és um daqueles artistas que está sempre insatisfeito e que mudaria sempre algo quando a versão final já está à venda?
John Digweed: Eu tento sempre apresentar a melhor mistura possível, mas eu já aprendi que pensar no trabalho após ele estar finalizado não é muito produtivo. Por exemplo, ao longo dos anos eu tenho produzido compilações que já foram aclamadas e desprezadas pela crítica; o primeiro ‘Northern Exposure’ não foi lá muito bem recebido, mas hoje em dia é considerado um clássico. Eu lembro-me que na altura fiquei muito chateado pela forma que o álbum estava a ser recebido.
Um dos meus objectivos é o de criar uma compilação que soe bem, 5 ou 10 anos depois de ser editada, mas claro que o objectivo principal é o de mostrar a minha sonoridade actual.
Qual foi o teu processo de selecção? Tens uma aproximação diferente para cada uma das compilações em que já trabalhaste?
John Digweed: Sabes, eu entretenho-me a ler os fóruns e principalmente as mensagens onde as pessoas dizem que eu mudo de estilo de clube para clube ou de compilação para compilação. Sim, eu adapto o meu set para se enquadrar no local e no tempo, mas dizer que mudo o meu estilo, é simplesmente demasiado. Talvez tudo dependa de interpretação e comunicação, sinceramente não sei, mas eu tenho a certeza de uma coisa: Em tudo o que faço eu tento manter-me verdadeiro a uma sonoridade bem distinta, e é essa sonoridade que as pessoas costumam associar a mim.
As compilações têm sido um dos formatos que mais tem evoluído nos últimos tempos. Agora com o Ableton, os artistas aperceberam-se que podem alterar/criar quase tudo, dando-lhes assim a ferramenta ideal, mas também toda a responsabilidade pela qualidade e inovação na compilação. Alguma vez te perdeste no meio de tantas opções?
John Digweed: Com esta compilação eu tentei criar algo único, uma vez que hoje em dia o público tem acesso a uma enorme quantidade de mixes, sejam eles podcast’s, ou set’s gravados ilegalmente. Como resultado as compilações têm que elevar o seu nível e oferecer algo completamente diferente. Eu pessoalmente posso discordar com a gravação ilegal de set’s e os consequentes downloads, mas eu seria estúpido se ignorasse o seu impacto e se não conseguisse responder à altura. Por isso com a T4 (Transitions 4) eu trabalhei 22 temas num mix de 70 minutos. Existem muito poucos segmentos onde a mistura propriamente dita acontece, e onde acontece, verás frequentemente que estão 3 temas a tocar simultaneamente.
Em resumo, é muito diferente daquilo que toco nos clubes, ou mesmo do programa de rádio com o mesmo nome. No entanto, temos de ter cuidado, pois existe uma pequena distância entre criar um set fluido e bem programado e criar um mega mix.
Este é um cuidado que todos os que usam esta nova tecnologia têm que ter o cuidado de evitar. Eu penso que o consegui, mas apenas o tempo o dirá.

Esta compilação parece ser uma experiência bastante pessoal, é assim que deve ser apreciada? Sem distracções, para que possamos ouvir todos os detalhes e apreciar toda a sua complexidade?
John Digweed: Acho que isso depende de cada indivíduo, mas como eu mencionei anteriormente, não tenham dúvidas que nesta compilação encontrarão um belo exemplo do meu som corrente e do meu estilo como dj. Tal como acontece em qualquer set, eu tento criar momentos únicos e faço com que exista uma programação coerente, para que todo o set cresça de forma ter um final adequado.
Quando veremos uma actuação “ao vivo” tua, utilizando Ableton Live ou um sistema similar?
John Digweed: Não me parece, eu uso o Ableton para criar mixes e os meus próprios edit’s, mas não tenho planos para incluir o software nos meus set’s. Dito isto, atenção que eu não estou a excluir nenhuma hipótese!
Há 5 anos atrás o debate vinil VS CD estava no seu auge e vê onde estamos agora, o vinil está a morrer em quase todos os países, exceptuando a Alemanha! Nunca sabemos que produto, seja hardware ou software, está para chegar, a que velocidade se integrará na indústria musical e que impacto terá na mesma, por isso eu tento manter sempre a minha mente aberta.
E achas que as novas tecnologias estão aqui para salvar a indústria musical, ou eventualmente irá destrui-la?
John Digweed: Eu não estou aqui para criticar as novas tecnologias, até porque elas foram desenhadas com o objectivo de permitir mais funcionalidade e flexibilidade ao dj/produtor. É um processo subjectivo que depende do indivíduo, um programa que eu posso odiar, pode ser o Santo Graal de um outro artista. Olha para o debate Serrato VS Ableton, embora actualmente alguns dj’s de música de dança o estejam a usar, o Serrato já era uma certeza junto da comunidade hip-hop.
Tu vais juntar-te ao Sasha para uma actuação no Rock in Rio, evento que irá ocorrer no próximo mês de Junho em Lisboa. Sempre que vocês os dois se juntam surge uma grande expectativa por parte dos fans, vocês sentem algo de especial no ar quando actuam os dois?
John Digweed: Sim, nós temos um efeito único um para o outro. Quando actuamos em formato ‘back to back’, o Sasha puxa sempre de um disco que eu não tenho ou não tocaria (e vice-versa), nós desafiamo-nos a seguir sonoridades e aproximações musicais que não seguiríamos se tivéssemos a tocar sozinhos.
Agora (na altura da entrevista), eu e o Sasha estamos numa tournée através da América do Norte. A última vez que tocamos tantas datas juntos foi na tour ‘Delta Heavy’.