
Com uma década de existência, este colectivo londrino congrega artistas audio-visuais DJs e produtores, estabelecendo a ponte entre o universo da arte e a indústria de entretenimento nas suas múltiplas expressões (desde a pista de dança ao cinema de Hollywood). Os Addictive TV já apresentaram o seu trabalho, marcado pela experimentação audio-visual live, em diversos locais de renome internacional, como o Centre Pompidou (Paris), o National Theatre (Londres), o Clube Ageha (Tóquio) ou o Kabuki Theater (São Francisco). São a dupla responsável pelo desenvolvimento das famosas mesas de mistura de vídeo da Pioneer, as DVJ-X1, e actuaram pela primeira vez em Portugal na última edição do Festival Numero Projecta.
Recentemente foram considerados pela prestigiada revista DJ Mag, como os melhores VJ's do mundo, repetindo assim o primeiro lugar já ocupado em 2004.
Quando é que vocês iniciaram o vosso projecto, e como surgiu a ideia?
AddictiveTV: Eu pessoalmente iniciei-me no vjing há cerca de uma década atrás e tendo em conta o onde estamos agora, acho que essa actividade inicial foi onde tudo começou. Eu tinha sido assistente de produção e mais tarde produtor de anúncios televisivos, também tinha feito muita edição e mistura ao vivo antes de me tornar VJ. Conheci o meu parceiro de negócios, Nick Clarke, no final dos anos 80 quando ambos trabalhávamos para televisão. No início dos anos 90 já estávamos fartos de trabalhar para outras pessoas e decidimos montar algo nosso.
Nessa altura tivemos a ideia de trazer o aspecto visual do clubbing até à televisão e em 1996 propusemos a ideia de “televisão ambiente” ao Channel 4. Em 1998 essa ideia tornou-se realidade e o programa chamou-se “Transambient”, um projecto inovador e muito simples, não tinha apresentadores, apenas transmitia uma fusão de visuais ao som de música electrónica. Ao produzir este programa conheci o Tolly, a outra parte da performance dos Addictive TV. Tolly era um dj e compositor que criava música para o programa e continuamos a trabalhar desde então. Nessa altura eu e o Nick já produzíamos o “Mixmasters”, a nossa série para ITV1 e um projecto DVD para dj’s, vj’s e animadores. Foi nesta altura que a Françoise Lamy se juntou a nós.
Nessa altura apercebemo-nos que todos nós tínhamos a mesma visão do que poderia ser o projecto, e então o Tolly começou a desenvolver uma ideia em que a música e o vídeo estavam equilibrados. Aquilo que vês é aquilo que ouves e vice-versa. Se tirasses uma das componentes, simplesmente deixaria de fazer sentido. O nosso intuito é o de tornar os elementos musicais e visuais indivisíveis.
Quais são as vossas influências?
AddictiveTV: Somos influenciados por tudo aquilo que vemos e ouvimos – filmes, vida real, TV, música. Não precisamos de nos restringir a formatos, estilos ou nomes, simplesmente fazemos aquilo que somos. Se as pessoas virem o nosso trabalho como parte de um movimento de artes visuais, é bom. Se as pessoas pensam que aquilo que fazemos é como que ir a um cinema paranóico, onde se juntam música de dança e imagens, também é bom.
Alguém uma vez disse que uma actuação nossa era como que uma mistura entre ir a um cinema louco e um clube. Eu penso que assistir a uma actuação nossa, é como que juntar numa misturadora um pouco de música electrónica, promos musicais, filmes, alguma televisão, mistura-los e servir. A questão é: dançamos ou observamos? Ou ambos?
Acreditam que os visuais são uma parte importante de qualquer projecto musical? Ou ainda existem limites relativamente à parte visual?
AddictiveTV: A um certo nível sim, a componente visual pode ser muito importante. Todos nós temos olhos e não só orelhas. Se os visuais forem uma extensão da música, então conseguirão criar uma atmosfera incrível. Da mesma forma que se os visuais forem maus, o inverso pode acontecer! As imagens adicionam sempre uma dimensão extra, acho que foi essa a razão pela qual o ser humano inventou a televisão e o cinema, e não apenas o rádio e os gramofones!
Não acredito que existam limites no que concerne aos visuais. O único limite é a quantidade de sons e imagens diferentes que o vosso cérebro consegue absorver.
Vocês ainda continuam a fazer vjing para clubes, ou o projecto audiovisual é a vossa principal preocupação?
AddictiveTV: Bem, na realidade já não fazemos apenas vjing. Hoje em dia somos apenas um projecto audiovisual, utilizando os DVJs que ajudamos a desenvolver e testar para a Pioneer Electronics.
Nas nossas actuações pretendemos continuar a remisturar filmes, criando temas de dança com samples de filmes, mas mantendo sempre a narrativa e sempre respeitando o filme original. Não existem muitos artistas a tomar esta iniciativa.
Recentemente actuamos no Brazil, e remisturamos o fantástico filme “Cidade de Deus” do Fernando Meireles, e foi espectacular, o público adorou.
No ano passado actuamos em Shanghai e remisturamos o filme “Crounching Tiger Hidden Dragon”, e o público voltou a adorar! Fizemos imensos trabalhos este ano, mas o projecto continua a evoluir e não sabemos para onde ele irá até chegarmos lá.

Na última edição do “TOP 20 VJ List” da DJ Mag, vocês foram considerados os melhores vj’s do mundo. Que tal é receber este louvor?
AddiciveTV: Foi incrível, até porque já tínhamos atingido o primeiro lugar no ano transacto. É ainda mais especial pelo facto de ser o público a votar, um verdadeiro reconhecimento de todo o nosso trabalho.
Vocês recentemente também começaram a trabalhar com a indústria cinematográfica, como é que isso começou?
AddictiveTV: O pessoal do marketing da New Line Cinema, viram o nosso remix do classico dos anos 60 “The Italian Job” e perguntaram-nos se estaríamos dispostos a fazer algo similar para a campanha promocional do filme “Take The Lead” do Antonio Banderas. Era uma nova ideia, que nenhum estúdio de Hollywood tinha tentado. Foi incrível para nós, principalmente pelo facto de nos terem dado toda a liberdade o que tornou tudo mais simples. Bem, na realidade não foi assim tão simples, porque passamos vários dias e noites editando, compondo e remisturando. De certa forma foi como que uma experiencia para eles, já que eles não sabiam que produto final iria ter. Mas eles adoraram, e o produto final foi tirado da internet por mais de meio milhão de pessoas, o que levou-nos a novos trabalhos como os trailers televisivos do filme “Snakes On a Plane”. Snakes foi um grande projecto, e o burburinho que gerou foi fenomenal! Tirando o filme “The Blair Witch Project”, “Snakes on a Plane” teve uma das mais eficazes pré-campanhas publicitárias de sempre. A certa altura nós éramos as únicas pessoas no Reino Unido que tinham tido acesso ao filme, e recebemos telefonemas da Radio 4 e do The Times para saberem qual era o conteúdo do mesmo. Neste momento estamos a remisturar um filme japonês de manga.
Qual o vosso set-up no estúdio e nas actuações ao vivo, e já agora qual o vosso “gadget” favorito?
AddictiveTV: O estúdio está montado de forma muito diferente que o nosso “live”. No estúdio temos uns quantos computadores com softwares como o Ableton Live, Cubase, Rebirth, After Effects, Premiere, Edius, etc ... e muitos discos rígidos enormes para os ficheiros! Temos também teclados, um velho Moog, DVJ, Dvcam deck, Betacam deck, esse género de coisas.
Nas actuações ao vivo utilizamos 3 Pionner DVJ-1000 (a nova versão de 2ª geração que temos vidno a testar ao longo de 2006), uma modificada e customizada mesa Edirol V-4 que recebe áudio (para nos permitir cortar e ‘scratch’ áudio e vídeo ao mesmo tempo – nós substituímos a T-Bar por um cross-fader), um portátil a correr VjammPro, uma mesa audio Pionner DJM600, ou 800 ou 1000 e um EFX-1000 da Pioneer. Para o nosso projecto de cinema ao vivo “The Eye of Pilot” é tudo diferente de novo; o nosso setup inclui também 2 guitarras (uma de 7 cordas), 2 portáteis (um com Ableton Live e outro com VjammPro), mais controladores midi, etc e 3 mesas de áudio.
No momento o meu “gadget” favorito é uma pequena tocha que compramos na China, é isqueiro de um lado e no outro tem uma pequena tocha. Tudo isto em forma de caneca pequena de café! Tudo por um preço de 1€, incrível!
Que projectos têm para o futuro próximo?
AddictiveTV: Nós temos uns projectos interessantes em curso. Tal como mencionei anteriormente, nós estamos a remisturar um filme manga Japonês para um spot vídeo e toque de telemóvel. O próximo projecto que nos foi proposto é o de criar uma instalação cuja temática será o desporto, para fazer uma tour na China um ano antes dos Jogos Olímpicos de Pequim. Fomos também abordados para remixar dois outros filmes de estúdios dos EUA, o que é fantástico.
Um projecto que temos a longo prazo é a realização de uma remistura sobre as danças dos Himalaias. Iremos trabalhar com imagens incríveis de monges, e estaremos em alguns mosteiros durante este ano, pelo que será certamente completamente diferente da visão habitual dos bastidores dos clubes.
E obviamente a próxima grande coisa para nós é a 2ª edição do nosso festival audiovisual Optronica de 14 a 18 de Março de 2007. Novamente nós estamos a colocar projectos fantásticos de audiovisuais a actuar em grandes espaços cinematográficos como ‘London National Film Theatre’ e o ‘BFI IMAX Cinema’ que tem o maior ecrã da Europa. Finalmente, há os nossos DVDs e nós estamos perto de completar um projecto de 3 DVDs, composto por 3 artistas britânicos – Exceeda, The Mellowtrons e Si Begg’s Noodles Foundation, todos planeados para sair em 2007.